Música

VÍDEOS

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MÚSICA / VÍCIO

MÚSICA / CDFH

Falam de nós

06.11.2013

Revista da Cultura - Ed. 74

O MUNDO DE FH




 

Com quantas personas se faz um Fause Haten? Até o fechamento desta edição, contamos oito: o estilista, o cantor, o ator, o figurinista, o escritor, o performer, o videomaker e o empresário. Mas certamente algum deve ter escapado. E é nesse turbilhão de atividades que o multiartista vive seu melhor momento. Em cartaz com a exposição itinerante O maravilhoso mundo do Dr. F, fruto do desfile da coleção Verão 2014 da São Paulo Fashion Week, realizado em março deste ano; fazendo a turnê de Vício, seu segundo CD, que conta com versões autorais de músicas de artistas como Sidney Magal, Cazuza, Marcelo Camelo e Chitãozinho e Xororó; planejando em seu ateliê um grande projeto para o próximo SPFW, que acontece mês que vem. Fause está sendo também muito elogiado pelos figurinos da peça A casa de Bernarda Alba, sob direção de Elias Andreato, e do musical A madrinha embriagada, dirigida por Miguel Falabella, ambos em temporada na capital paulista; além disso, está em busca de uma editora para lançar sua autobiografia e já planeja estrear em março de 2014 um espetáculo solo no teatro.

Filho de imigrantes árabes que, durante a década de 1950, se instalaram na Rua 25 de Março – via de comércio paulistana com muitas lojas de tecidos –, Fause cresceu dentro desse mundo e foi, cada vez mais, encontrando o seu próprio caminho. “Comecei a fazer roupa porque queria viajar. Então, não comecei a fazer moda como as outras pessoas.” Da ascendência libanesa, também herdou a qualidade de realizar coisas. Em vez de esperar que alguém faça por ele, vai lá e pronto: está feito! Ele não revela a idade em entrevistas, mas, se acreditarmos na internet, completará 45 anos em 1º de outubro próximo. Mas não parece. A busca pelo novo, por algo que ainda não tenha visto, faz que a idade seja apenas um número, não um peso. Profundamente levado pela estética, ele tem na imagem algo muito forte em sua vida. Tudo aquilo que o movimenta lhe dá prazer, seja a música, o teatro, uma aula de dança e até exercícios para o corpo. É dessa constante procura pelo autêntico que surgem novos Fause, aqueles que certamente nos emocionarão com algo inesperado.



Vamos ver se estou por dentro de tudo em que você está envolvido: tem exposição em cartaz, turnê do último álbum, figurino para o teatro e, mês que vem, o SPFW...
É isso mesmo. Tem os shows, a exposição, a peça A casa de Bernarda Alba e o musical A madrinha embriagada – os figurinos. Tem um grande projeto artístico pro SPFW, mas não posso te falar muito. Começa em setembro, mas acontece efetivamente em outubro, na última semana. Agora, vamos começar uma turnê doVício, dia 25 de agosto, por alguns CEUs [Centro Educacional Unificado] de São Paulo. E estou finalizando um livro, que é uma biografia minha.

Então já está quase pronta?
Sim. É uma biografia mesmo, em dois volumes. Em um, tem todo o meu acervo fotografado e, no outro, tem uma conversa artística, de uma pessoa que começa ali na adolescência com as suas vontades e como elas vão se desenvolvendo por essa vida. É um relato franco, de altos e baixos, dúvidas, questionamentos e soluções. Adoro biografias. Isso particularmente me alimenta. Fiz essa bio pensando na curiosidade de alguém em relação a uma vida artística. Até porque, hoje, não sei se me considero especificamente um estilista. Acho que sou um artista, e a moda é uma das minhas expressões.

E são muitas vontades colocadas em prática. Como acabaram se concretizando?
São muitas. E o mundo de hoje nos permite isso. Estamos na semana de estreia de A casa de Bernarda Alba e é um prazer tão grande ver aquela obra. Fiz roupas para desfiles a vida toda – e um desfile acontece rapidamente e você raramente vê, porque está nos bastidores, e depois depende de uma cliente usar, de alguém comprar aquela roupa –  e quando você realiza um figurino de teatro, ele está lá, e vai ficar em cartaz por um ano. Você tem um tempo de maturação, de diálogo, dos ensaios, você vai lapidando de uma forma completamente diferente. Então, são exercícios muito interessantes. E só abrindo um parêntese nisso: era uma vontade minha. Estava vindo naquela fase de 2000 a 2004, de desfiles internacionais, de vai e volta. E olhei aquilo tudo e pensei? “Será que é isso mesmo que quero?” Aí, voltei pra cá e falei: “Gente, virei um empresário e ocupo 10% do meu dia com a parte criativa. Por que tenho que cuidar da importação, da exportação, representar o showroom, cuidar da produção do desfile? Não! Não é isso que quero!”. Aí, fui estudar teatro, e ele foi abrindo caminhos... E um dia estava fazendo a trilha do desfile e comecei a conversar com o [DJ] Zé Pedro e a gente falou: “Ah, vamos colocar alguém ao vivo cantando. A gente quer um crooner. Quem é crooner?”. E ele falou: “Ué, canta você. Você não canta e estuda?”. E eu falei: “Ah, tá bom! Vamos cantar”. Aí, comecei a cantar e a escrever e pensei: “Nossa! Posso cantar a música que eu escrevi!”. E aquela palavra passa a ter cor, passa a ter dia, passa a ter hora, porque tudo aquilo tem uma história.

E foi assim que você descobriu que era muito mais que um estilista...
Na realidade, foi uma coisa de descoberta artística mesmo. Quando eu estava na [Escola Superior de Artes] Célia Helena, um professor meu, Rui Cortez, falou assim: “Fause, você não é um ator. É um performer. Estude performance. Pesquise isso”. E nunca pesquisei. O assunto ficou meio parado. E agora, especificamente, estou fazendo um trabalho de performance, mas cheguei por outro lado... Ganhei um livro sobre o tema, comecei a ler e disse: “Gente, é isso”. Meu desfile de marionetes já é uma performance. Quando eu entro no show já é uma performance, no sentido de que é o Fause artista em primeira pessoa. Não me considero o tipo de ator, no sentido do ofício do ator. Eu preciso de um envolvimento artístico com aquilo. Então, brinco que, quando estilista, me sentia atuando; quando cantor, me sentia ator; e, quando ator, ficava tentando esconder o estilista. Na hora em que passei a usar a palavra performer, parece que me encaixei.



E como você acabou entrando no mundo dos figurinos? Primeiro, O médico e o monstro e O mágico de Oz. Agora, A madrinha embriagada A casa de Bernarda Alba.
Quando comecei a estudar teatro, imediatamente todo mundo começou a me procurar para fazer figurino. Fiz figurinos no final dos anos 1990. Por exemplo, [o figurinista e cenógrafo] Fabinho Namatame fazia e eu estava ali na execução. Cheguei a fazer uma peça da Fernanda Montenegro, que se chamava Gilda, com a Regina Guerreiro assinando, e eu na execução. E, quando estava na escola, eu falava: “Não, gente. Estou aqui para ser ator, não para fazer figurino”. Então, quando estava saindo, me fizeram o convite para fazer O médico e o monstro. Como gosto muito de musical e tinha curiosidade de ver a estrutura, fiz esse figurino. Todo mundo disse que estava lindo, mas fiquei dois anos parado. Apareciam os convites e eu não fazia. Até 2011, quando veio o convite do Charles [Moeller] e do Claudio [Botelho] para fazer O mágico de Oz. Dali pra frente, não parei mais. Comecei a fazer um e outro e percebi que tenho uma contribuição, um conhecimento técnico de roupa e de teatro. Sou um estudioso de luz, profundidade, atuação, cenário... Inicialmente, eu só assinava o desenho e comecei a perceber que a produção do figurino é muito artesanal, quase primária, no sentido de que você poderia montar uma linha de produção na forma de comprar o tecido, na forma de produzir... E comecei a colocar um pensamento de organização de indústria. Então, hoje, também tenho produzido figurino. Abri um espaço na empresa para fazer isso.

No desfile do SPFW, para a coleção Verão 2014, você surpreendeu a todos com suas bonecas. O que te levou a trocar as modelos pelas marionetes?
Isso é muito engraçado. É curioso como a vida vai tomando seus próprios caminhos. Falo isso pra todo mundo, não tem por que esconder. Para fazer um desfile no formato normal, eu penso: “Pelo amor de Deus. De novo? Eu não aguento mais”. Então, o que me estimula é pensar e usar esse palco que tenho para fazer outras coisas e para exercitar esses caminhos.

Desfile dentro desse formato tradicional nem passa mais pela sua cabeça?
É uma coisa que, eventualmente, até faço... Quando não tenho tempo, eu faço. Agora mesmo, fiz um desfile num evento de noivas. Foram essas mesmas roupas [feitas para o desfile Verão 2014], só que transformei em vestidos de noivas, com véus coloridos. Foi engraçado, porque, por onde as meninas passavam, elas ficavam desarrumadas. Então, fiquei em cena, arrumando-as. E todo mundo falava: “Ai, Fause, que lindo era ver você arrumando elas”. Então disse: “Performance”.



Mesmo em um formato padrão você consegue sair do tradicional.
A performance é isso. É você colocar o processo em exposição. Tenho feito uns pequenos ou maiores exercícios de modificar esse formato. E aí eu estava pensando no desfile e especificamente o do ano passado, que foi bem cansativo, pois o SPFW mudou de calendário e a gente fez três desfiles no mesmo ano.

O que você achou dessa mudança?
Não concordo com essa mudança, nem vou discutir. Mudaram, eu mudei. Foi uma decisão do grupo. Muitos não fizeram o desfile. E eu falei: “É pra fazer, então, vou fazer”. Era cansativo. E aí chegou janeiro de novo e pensei: “E agora, o que vou fazer?” Foi aí que tive a ideia de produzir roupas em miniatura, comecei a pensar nas bonecas... Elas poderiam ir passando, ser uma coisa rotatória. Veio uma ideia, outra, e pensei que poderíamos usar marionetes. Comecei a pesquisar isso e, surpreendentemente, de janeiro a março, consegui produzir 30 bonecas!

O trabalho foi muito intenso?
Foi praticamente o dobro ou o triplo de trabalho. Fiz a roupa grande criando a proporção. As roupas são essas e elas foram diminuídas. Então, teve um trabalho de modelagem, de diminuir, de fazer a flor, o tecido e o corset diminuírem. Foi um trabalho grande, mas que aqui no ateliê divertiu todo mundo.

E do desfile elas agora viraram uma exposição...
Após o desfile, elas [as bonecas] ficaram aqui comigo e agora viraram essa exposição que está rodando o país. Já foi para Curitiba e São Paulo, depois vai para Porto Alegre e Brasília, e, em 2014, para mais cinco capitais. Hoje em dia, de certa forma, virei uma empresa que vende conteúdo. É a exposição, o show Vício... E aí surge esse desfile; fiz o texto, a trilha, dirigi aquela cena e consegui o Teatro FAAP. Ao final do desfile, aquilo era uma catarse. As pessoas chorando, emocionadíssimas. No dia seguinte, mais uma surpresa quando comecei a ver o resultado internacional. Nem quando desfilava fora do Brasil tinha esse resultado.



Como você reagiu a tudo isso e, especialmente, às críticas especializadas?
Muito feliz. Percebi que estou num caminho certo de pensar formatos. Porque acho que essa é a função do artista mesmo. A coisa mais engraçada do mundo é que recebi uma crítica forte da Gloria Kalil em outubro do ano passado por outra coleção e criou aquela polêmica toda. E passou. Não era nem uma coisa pessoal contra ela. Eu precisava escrever pra mim, sabe? Então, quando esse desfile acabou, as pessoas vieram me perguntar se isso era uma resposta para a Gloria Kalil. Aí eu falei: “Resposta, mas por quê?”. “Fause, você colocou o seu desfile no palco!”. E a grande ironia, porque ela [Gloria] dizia que eu tinha que juntar meus talentos e ir para o palco. E aí fiz um desfile no palco, que foi o maior acontecimento da moda daquela coleção. Então, só veio para confirmar aquilo em que acredito, que não existe um formato, que a moda está no lugar errado. A moda sempre foi libertária e entrou nessa coisa de regras: isso é certo, isso é errado, isso é chique, isso é brega, isso é a roupa da estação, isso não é a roupa da estação. Está errado. Não é essa a forma. E a função do artista é correr riscos. Vou fazer um projeto no próximo desfile que é mais arriscado ainda, mas que tem uma coisa nesse tipo de acontecimento, principalmente no de moda. Você faz o desfile uma vez só. Ele é quase um happening, porque não vai se repetir. Nesse desfile poderia ter dado tudo errado, mas não! Teve, de todas as coisas maravilhosas que eu ouvi, só uma pessoa que escreveu assim: “Que coisa horrorosa aquelas mulheres manipuladas parecendo mortas vivas”. É o olhar daquela pessoa que viu o desfile.

E você acaba conferindo tudo o que sai na mídia sobre suas produções?
Não tudo. Vou confessar que críticas de jornalistas eu não leio. Não me interessa. Acabei vendo essa da Gloria Kalil por acaso e o sangue acabou subindo. Me incomodou a hora que ela falou que não existe mulher para usar essa roupa. E acho que é um equívoco. Ela, como uma jornalista de moda, falar isso? Porque existe, sim, e trabalho há 25 anos vestindo essa mulher. E jornalista especificamente nesse momento está muito entusiasmado, porque agora ele senta nas primeiras filas dos desfiles internacionais, porque todas as marcas estão aqui e tem o interesse. Então, mudou. Sou de uma geração que nunca foi aos desfiles internacionais. Fui uma vez e fiquei atrás da última cadeira, ao lado da Costanza Pascolato, quase pendurado no lustre para ver o desfile da Gucci e do Tom Ford. Não é que ela tinha um lugar ali, ela não tinha. Hoje ela tem, o Brasil passou a ser considerado. Então “ok”. Acho legal, precisa existir um respeito pelos brasileiros e pelas pessoas que estão aqui trabalhando. Agora, o que me interessa ler e, eventualmente, eu leio – e até é doloroso –, é o comentário das pessoas na internet. Acho isso curioso. E hoje em dia, de certa maneira, a internet é um esgoto. Porque a gente está vivendo um momento de muita exposição; todo mundo faz a sua página e cria o seu personagem de sucesso. Percebo que tem muita gente deixando de criar, se expressar e fazer coisas para ficar ali, atrás da tela do computador, contestando as pessoas que fazem. Tem muita gente dando opinião e algumas são desrespeitosas, agressivas.

[A jornalista] Regina Guerreiro afirmou recentemente que a mídia não faz mais análises profundas sobre moda e só existem “crônicas boazinhas”, tudo é lindo, não analisam o porquê da escolha das cores, as influências, tudo muito raso. Você concorda com ela?
Acho que é o contrário. Não pode existir crítica. No mundo de hoje, não faz sentido uma pessoa se colocar em cima de um pedestal e falar isso é certo e isso é errado. Acho que, quando a Regina fala isso, ela está justamente querendo reivindicar o tempo em que ela falava mal das pessoas. Sua crítica nunca foi isenta. Acho que, hoje, o jornalista tem que se posicionar, dar a sua opinião pessoal: eu não usaria, gosto, adoro isso e não gosto daquilo. Agora, se posicionar de uma maneira arrogante, falar “isto está fora da moda, isto está dentro da moda, não existe público para isso, não poderia” é um jeito antigo, é um jeito de falar que não convence mais. É como religião. Uma pessoa que precisa que lhe diga o que é certo e o que é errado vai em busca de um dogma, de uma religião para criar um padrão. Acho que existe uma forma de tratar a relação com o espiritual, que se baseia na fé e no amor, e que não necessariamente tem regras. Então, quando você vê que a Gloria Kalil escreve uma matéria sobre a “roupa da manifestação”, você fala: “Bom, né?!”. (ri ironicamente) Aí ela escreve um livro de como o brasileiro tem de se portar para viajar. É uma forma de ganhar dinheiro. Pra mim, é a mesma coisa que uma religião. É encontrar um formato de “eu vou te salvar, paga aqui que vou te salvar”.



A decisão de ter apenas o ateliê e atender as clientes com hora marcada também se encaixa em tudo o que você está vivendo?
Estou me estruturando assim porque tomei a decisão de ser uma pessoa de criação. Por conta disso, larguei mão de abrir lojas. Tem horas que falo: “Vou abrir uma loja aqui”. Aí, penso melhor: “Não, Fause, não”. E acho mais adequado a mim nesse momento. Hoje, consigo ter uma organização e um tempo para fazer todas essas coisas e acho que a minha vida é muito mais interessante, é muito estimulante.

A sua moda é muito mais do que só uma passarela?
É. Acho que hoje é.

Sempre foi ou isso ficou mais forte com o tempo?
É mais hoje. Passei muito tempo tentando me enquadrar num formato sem pensar especificamente nesse formato. Hoje, passei a tomar decisões mais claras. Antigamente, não pensava no formato, simplesmente executava. Estava ali, tentando pertencer àquele universo.

E o que te interessa na moda hoje?Na moda, de maneira geral, e no jornalismo, me interessam essas pessoas que têm uma opinião, que se expressam; eventualmente essa expressão pode me interessar ou não. Esse lugar do início das blogueiras me interessa. Quando ela vira um negócio, ela deixa de ser interessante. Mas quando ela começa ali, frágil, ela mostra o seu jeito de pensar... Aquilo é interessante; a juventude, a molecada, a câmera na mão, o Instagram, o vídeo no Instagram. Essa coisa do instantâneo, não pela rapidez, mas pela inocência, pela verdade e pela autenticidade. Acho que era essa palavra que estava procurando: a coisa autêntica, virgem.

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Noivas

Falam de nós

08.11.2013

Heloisa Marra - 30/10/13

Bollywood na Paulista



Bollywood na Av. Paulista foi o clima da performance de Fause Haten, que colocou 20 modelos para desfilar em plena Av. Paulista. Com perucas coloridas, em turquesa, amarelo e pink, estampa de deuses indianos nas roupas em sua maioria trabalhadas em franjas, as meninas atravessaram a rua bem na hora em que passava uma passeata de aposentados com suas faixas de protesto. Confira.

"Atrasei a saída das modelos de propósito. Para encontrar a passeata", contou Fause. O destaque ficou por conta do balé liderado por Thiago Amoral, que evoluiu na calçada, diante das modelos perfiladas, no melhor estilo Bollywood. O colorido estilo das meninas lembrava o grupo japa Yamamba, conhecido pelos cabelos vibrantes e pelas cores fortes na roupa.

Na performance de Fause, a grande figura foi Thiago Amoral. Na verdade Amaral, "que troquei nas redes sociais por Amoral".

Coberto de dourado, turbante brilhante de marajá street, Amoral liderou a apresentação com firmeza e alegria. Ao aparecer do outro lado da rua atraiu o olhar dos fotógrafos, que ficaram hipnotizados pela imagem insana de um hindu glitter em plena Av. Paulista,

Os cliques dispararam e o desfile começou. "Fui fazer dança clássica na Índia e me apaixonei por Bollywood. Resolvi então criar a partir da musica indiana uma nova dança, que misturasse jazz, hip hop e vários gêneros".

Qual a tendência da coleção? Perguntou uma repórter. 'A que você quiser", respondeu Fause.

desfile fause dançarinos

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Figurinos

Falando de Teatro

06.11.2013

Revista da Cultura - Ed. 74

O MUNDO DE FH




 

Com quantas personas se faz um Fause Haten? Até o fechamento desta edição, contamos oito: o estilista, o cantor, o ator, o figurinista, o escritor, o performer, o videomaker e o empresário. Mas certamente algum deve ter escapado. E é nesse turbilhão de atividades que o multiartista vive seu melhor momento. Em cartaz com a exposição itinerante O maravilhoso mundo do Dr. F, fruto do desfile da coleção Verão 2014 da São Paulo Fashion Week, realizado em março deste ano; fazendo a turnê de Vício, seu segundo CD, que conta com versões autorais de músicas de artistas como Sidney Magal, Cazuza, Marcelo Camelo e Chitãozinho e Xororó; planejando em seu ateliê um grande projeto para o próximo SPFW, que acontece mês que vem. Fause está sendo também muito elogiado pelos figurinos da peça A casa de Bernarda Alba, sob direção de Elias Andreato, e do musical A madrinha embriagada, dirigida por Miguel Falabella, ambos em temporada na capital paulista; além disso, está em busca de uma editora para lançar sua autobiografia e já planeja estrear em março de 2014 um espetáculo solo no teatro.

Filho de imigrantes árabes que, durante a década de 1950, se instalaram na Rua 25 de Março – via de comércio paulistana com muitas lojas de tecidos –, Fause cresceu dentro desse mundo e foi, cada vez mais, encontrando o seu próprio caminho. “Comecei a fazer roupa porque queria viajar. Então, não comecei a fazer moda como as outras pessoas.” Da ascendência libanesa, também herdou a qualidade de realizar coisas. Em vez de esperar que alguém faça por ele, vai lá e pronto: está feito! Ele não revela a idade em entrevistas, mas, se acreditarmos na internet, completará 45 anos em 1º de outubro próximo. Mas não parece. A busca pelo novo, por algo que ainda não tenha visto, faz que a idade seja apenas um número, não um peso. Profundamente levado pela estética, ele tem na imagem algo muito forte em sua vida. Tudo aquilo que o movimenta lhe dá prazer, seja a música, o teatro, uma aula de dança e até exercícios para o corpo. É dessa constante procura pelo autêntico que surgem novos Fause, aqueles que certamente nos emocionarão com algo inesperado.



Vamos ver se estou por dentro de tudo em que você está envolvido: tem exposição em cartaz, turnê do último álbum, figurino para o teatro e, mês que vem, o SPFW...
É isso mesmo. Tem os shows, a exposição, a peça A casa de Bernarda Alba e o musical A madrinha embriagada – os figurinos. Tem um grande projeto artístico pro SPFW, mas não posso te falar muito. Começa em setembro, mas acontece efetivamente em outubro, na última semana. Agora, vamos começar uma turnê doVício, dia 25 de agosto, por alguns CEUs [Centro Educacional Unificado] de São Paulo. E estou finalizando um livro, que é uma biografia minha.

Então já está quase pronta?
Sim. É uma biografia mesmo, em dois volumes. Em um, tem todo o meu acervo fotografado e, no outro, tem uma conversa artística, de uma pessoa que começa ali na adolescência com as suas vontades e como elas vão se desenvolvendo por essa vida. É um relato franco, de altos e baixos, dúvidas, questionamentos e soluções. Adoro biografias. Isso particularmente me alimenta. Fiz essa bio pensando na curiosidade de alguém em relação a uma vida artística. Até porque, hoje, não sei se me considero especificamente um estilista. Acho que sou um artista, e a moda é uma das minhas expressões.

E são muitas vontades colocadas em prática. Como acabaram se concretizando?
São muitas. E o mundo de hoje nos permite isso. Estamos na semana de estreia de A casa de Bernarda Alba e é um prazer tão grande ver aquela obra. Fiz roupas para desfiles a vida toda – e um desfile acontece rapidamente e você raramente vê, porque está nos bastidores, e depois depende de uma cliente usar, de alguém comprar aquela roupa –  e quando você realiza um figurino de teatro, ele está lá, e vai ficar em cartaz por um ano. Você tem um tempo de maturação, de diálogo, dos ensaios, você vai lapidando de uma forma completamente diferente. Então, são exercícios muito interessantes. E só abrindo um parêntese nisso: era uma vontade minha. Estava vindo naquela fase de 2000 a 2004, de desfiles internacionais, de vai e volta. E olhei aquilo tudo e pensei? “Será que é isso mesmo que quero?” Aí, voltei pra cá e falei: “Gente, virei um empresário e ocupo 10% do meu dia com a parte criativa. Por que tenho que cuidar da importação, da exportação, representar o showroom, cuidar da produção do desfile? Não! Não é isso que quero!”. Aí, fui estudar teatro, e ele foi abrindo caminhos... E um dia estava fazendo a trilha do desfile e comecei a conversar com o [DJ] Zé Pedro e a gente falou: “Ah, vamos colocar alguém ao vivo cantando. A gente quer um crooner. Quem é crooner?”. E ele falou: “Ué, canta você. Você não canta e estuda?”. E eu falei: “Ah, tá bom! Vamos cantar”. Aí, comecei a cantar e a escrever e pensei: “Nossa! Posso cantar a música que eu escrevi!”. E aquela palavra passa a ter cor, passa a ter dia, passa a ter hora, porque tudo aquilo tem uma história.

E foi assim que você descobriu que era muito mais que um estilista...
Na realidade, foi uma coisa de descoberta artística mesmo. Quando eu estava na [Escola Superior de Artes] Célia Helena, um professor meu, Rui Cortez, falou assim: “Fause, você não é um ator. É um performer. Estude performance. Pesquise isso”. E nunca pesquisei. O assunto ficou meio parado. E agora, especificamente, estou fazendo um trabalho de performance, mas cheguei por outro lado... Ganhei um livro sobre o tema, comecei a ler e disse: “Gente, é isso”. Meu desfile de marionetes já é uma performance. Quando eu entro no show já é uma performance, no sentido de que é o Fause artista em primeira pessoa. Não me considero o tipo de ator, no sentido do ofício do ator. Eu preciso de um envolvimento artístico com aquilo. Então, brinco que, quando estilista, me sentia atuando; quando cantor, me sentia ator; e, quando ator, ficava tentando esconder o estilista. Na hora em que passei a usar a palavra performer, parece que me encaixei.



E como você acabou entrando no mundo dos figurinos? Primeiro, O médico e o monstro e O mágico de Oz. Agora, A madrinha embriagada A casa de Bernarda Alba.
Quando comecei a estudar teatro, imediatamente todo mundo começou a me procurar para fazer figurino. Fiz figurinos no final dos anos 1990. Por exemplo, [o figurinista e cenógrafo] Fabinho Namatame fazia e eu estava ali na execução. Cheguei a fazer uma peça da Fernanda Montenegro, que se chamava Gilda, com a Regina Guerreiro assinando, e eu na execução. E, quando estava na escola, eu falava: “Não, gente. Estou aqui para ser ator, não para fazer figurino”. Então, quando estava saindo, me fizeram o convite para fazer O médico e o monstro. Como gosto muito de musical e tinha curiosidade de ver a estrutura, fiz esse figurino. Todo mundo disse que estava lindo, mas fiquei dois anos parado. Apareciam os convites e eu não fazia. Até 2011, quando veio o convite do Charles [Moeller] e do Claudio [Botelho] para fazer O mágico de Oz. Dali pra frente, não parei mais. Comecei a fazer um e outro e percebi que tenho uma contribuição, um conhecimento técnico de roupa e de teatro. Sou um estudioso de luz, profundidade, atuação, cenário... Inicialmente, eu só assinava o desenho e comecei a perceber que a produção do figurino é muito artesanal, quase primária, no sentido de que você poderia montar uma linha de produção na forma de comprar o tecido, na forma de produzir... E comecei a colocar um pensamento de organização de indústria. Então, hoje, também tenho produzido figurino. Abri um espaço na empresa para fazer isso.

No desfile do SPFW, para a coleção Verão 2014, você surpreendeu a todos com suas bonecas. O que te levou a trocar as modelos pelas marionetes?
Isso é muito engraçado. É curioso como a vida vai tomando seus próprios caminhos. Falo isso pra todo mundo, não tem por que esconder. Para fazer um desfile no formato normal, eu penso: “Pelo amor de Deus. De novo? Eu não aguento mais”. Então, o que me estimula é pensar e usar esse palco que tenho para fazer outras coisas e para exercitar esses caminhos.

Desfile dentro desse formato tradicional nem passa mais pela sua cabeça?
É uma coisa que, eventualmente, até faço... Quando não tenho tempo, eu faço. Agora mesmo, fiz um desfile num evento de noivas. Foram essas mesmas roupas [feitas para o desfile Verão 2014], só que transformei em vestidos de noivas, com véus coloridos. Foi engraçado, porque, por onde as meninas passavam, elas ficavam desarrumadas. Então, fiquei em cena, arrumando-as. E todo mundo falava: “Ai, Fause, que lindo era ver você arrumando elas”. Então disse: “Performance”.



Mesmo em um formato padrão você consegue sair do tradicional.
A performance é isso. É você colocar o processo em exposição. Tenho feito uns pequenos ou maiores exercícios de modificar esse formato. E aí eu estava pensando no desfile e especificamente o do ano passado, que foi bem cansativo, pois o SPFW mudou de calendário e a gente fez três desfiles no mesmo ano.

O que você achou dessa mudança?
Não concordo com essa mudança, nem vou discutir. Mudaram, eu mudei. Foi uma decisão do grupo. Muitos não fizeram o desfile. E eu falei: “É pra fazer, então, vou fazer”. Era cansativo. E aí chegou janeiro de novo e pensei: “E agora, o que vou fazer?” Foi aí que tive a ideia de produzir roupas em miniatura, comecei a pensar nas bonecas... Elas poderiam ir passando, ser uma coisa rotatória. Veio uma ideia, outra, e pensei que poderíamos usar marionetes. Comecei a pesquisar isso e, surpreendentemente, de janeiro a março, consegui produzir 30 bonecas!

O trabalho foi muito intenso?
Foi praticamente o dobro ou o triplo de trabalho. Fiz a roupa grande criando a proporção. As roupas são essas e elas foram diminuídas. Então, teve um trabalho de modelagem, de diminuir, de fazer a flor, o tecido e o corset diminuírem. Foi um trabalho grande, mas que aqui no ateliê divertiu todo mundo.

E do desfile elas agora viraram uma exposição...
Após o desfile, elas [as bonecas] ficaram aqui comigo e agora viraram essa exposição que está rodando o país. Já foi para Curitiba e São Paulo, depois vai para Porto Alegre e Brasília, e, em 2014, para mais cinco capitais. Hoje em dia, de certa forma, virei uma empresa que vende conteúdo. É a exposição, o show Vício... E aí surge esse desfile; fiz o texto, a trilha, dirigi aquela cena e consegui o Teatro FAAP. Ao final do desfile, aquilo era uma catarse. As pessoas chorando, emocionadíssimas. No dia seguinte, mais uma surpresa quando comecei a ver o resultado internacional. Nem quando desfilava fora do Brasil tinha esse resultado.



Como você reagiu a tudo isso e, especialmente, às críticas especializadas?
Muito feliz. Percebi que estou num caminho certo de pensar formatos. Porque acho que essa é a função do artista mesmo. A coisa mais engraçada do mundo é que recebi uma crítica forte da Gloria Kalil em outubro do ano passado por outra coleção e criou aquela polêmica toda. E passou. Não era nem uma coisa pessoal contra ela. Eu precisava escrever pra mim, sabe? Então, quando esse desfile acabou, as pessoas vieram me perguntar se isso era uma resposta para a Gloria Kalil. Aí eu falei: “Resposta, mas por quê?”. “Fause, você colocou o seu desfile no palco!”. E a grande ironia, porque ela [Gloria] dizia que eu tinha que juntar meus talentos e ir para o palco. E aí fiz um desfile no palco, que foi o maior acontecimento da moda daquela coleção. Então, só veio para confirmar aquilo em que acredito, que não existe um formato, que a moda está no lugar errado. A moda sempre foi libertária e entrou nessa coisa de regras: isso é certo, isso é errado, isso é chique, isso é brega, isso é a roupa da estação, isso não é a roupa da estação. Está errado. Não é essa a forma. E a função do artista é correr riscos. Vou fazer um projeto no próximo desfile que é mais arriscado ainda, mas que tem uma coisa nesse tipo de acontecimento, principalmente no de moda. Você faz o desfile uma vez só. Ele é quase um happening, porque não vai se repetir. Nesse desfile poderia ter dado tudo errado, mas não! Teve, de todas as coisas maravilhosas que eu ouvi, só uma pessoa que escreveu assim: “Que coisa horrorosa aquelas mulheres manipuladas parecendo mortas vivas”. É o olhar daquela pessoa que viu o desfile.

E você acaba conferindo tudo o que sai na mídia sobre suas produções?
Não tudo. Vou confessar que críticas de jornalistas eu não leio. Não me interessa. Acabei vendo essa da Gloria Kalil por acaso e o sangue acabou subindo. Me incomodou a hora que ela falou que não existe mulher para usar essa roupa. E acho que é um equívoco. Ela, como uma jornalista de moda, falar isso? Porque existe, sim, e trabalho há 25 anos vestindo essa mulher. E jornalista especificamente nesse momento está muito entusiasmado, porque agora ele senta nas primeiras filas dos desfiles internacionais, porque todas as marcas estão aqui e tem o interesse. Então, mudou. Sou de uma geração que nunca foi aos desfiles internacionais. Fui uma vez e fiquei atrás da última cadeira, ao lado da Costanza Pascolato, quase pendurado no lustre para ver o desfile da Gucci e do Tom Ford. Não é que ela tinha um lugar ali, ela não tinha. Hoje ela tem, o Brasil passou a ser considerado. Então “ok”. Acho legal, precisa existir um respeito pelos brasileiros e pelas pessoas que estão aqui trabalhando. Agora, o que me interessa ler e, eventualmente, eu leio – e até é doloroso –, é o comentário das pessoas na internet. Acho isso curioso. E hoje em dia, de certa maneira, a internet é um esgoto. Porque a gente está vivendo um momento de muita exposição; todo mundo faz a sua página e cria o seu personagem de sucesso. Percebo que tem muita gente deixando de criar, se expressar e fazer coisas para ficar ali, atrás da tela do computador, contestando as pessoas que fazem. Tem muita gente dando opinião e algumas são desrespeitosas, agressivas.

[A jornalista] Regina Guerreiro afirmou recentemente que a mídia não faz mais análises profundas sobre moda e só existem “crônicas boazinhas”, tudo é lindo, não analisam o porquê da escolha das cores, as influências, tudo muito raso. Você concorda com ela?
Acho que é o contrário. Não pode existir crítica. No mundo de hoje, não faz sentido uma pessoa se colocar em cima de um pedestal e falar isso é certo e isso é errado. Acho que, quando a Regina fala isso, ela está justamente querendo reivindicar o tempo em que ela falava mal das pessoas. Sua crítica nunca foi isenta. Acho que, hoje, o jornalista tem que se posicionar, dar a sua opinião pessoal: eu não usaria, gosto, adoro isso e não gosto daquilo. Agora, se posicionar de uma maneira arrogante, falar “isto está fora da moda, isto está dentro da moda, não existe público para isso, não poderia” é um jeito antigo, é um jeito de falar que não convence mais. É como religião. Uma pessoa que precisa que lhe diga o que é certo e o que é errado vai em busca de um dogma, de uma religião para criar um padrão. Acho que existe uma forma de tratar a relação com o espiritual, que se baseia na fé e no amor, e que não necessariamente tem regras. Então, quando você vê que a Gloria Kalil escreve uma matéria sobre a “roupa da manifestação”, você fala: “Bom, né?!”. (ri ironicamente) Aí ela escreve um livro de como o brasileiro tem de se portar para viajar. É uma forma de ganhar dinheiro. Pra mim, é a mesma coisa que uma religião. É encontrar um formato de “eu vou te salvar, paga aqui que vou te salvar”.



A decisão de ter apenas o ateliê e atender as clientes com hora marcada também se encaixa em tudo o que você está vivendo?
Estou me estruturando assim porque tomei a decisão de ser uma pessoa de criação. Por conta disso, larguei mão de abrir lojas. Tem horas que falo: “Vou abrir uma loja aqui”. Aí, penso melhor: “Não, Fause, não”. E acho mais adequado a mim nesse momento. Hoje, consigo ter uma organização e um tempo para fazer todas essas coisas e acho que a minha vida é muito mais interessante, é muito estimulante.

A sua moda é muito mais do que só uma passarela?
É. Acho que hoje é.

Sempre foi ou isso ficou mais forte com o tempo?
É mais hoje. Passei muito tempo tentando me enquadrar num formato sem pensar especificamente nesse formato. Hoje, passei a tomar decisões mais claras. Antigamente, não pensava no formato, simplesmente executava. Estava ali, tentando pertencer àquele universo.

E o que te interessa na moda hoje?Na moda, de maneira geral, e no jornalismo, me interessam essas pessoas que têm uma opinião, que se expressam; eventualmente essa expressão pode me interessar ou não. Esse lugar do início das blogueiras me interessa. Quando ela vira um negócio, ela deixa de ser interessante. Mas quando ela começa ali, frágil, ela mostra o seu jeito de pensar... Aquilo é interessante; a juventude, a molecada, a câmera na mão, o Instagram, o vídeo no Instagram. Essa coisa do instantâneo, não pela rapidez, mas pela inocência, pela verdade e pela autenticidade. Acho que era essa palavra que estava procurando: a coisa autêntica, virgem.

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